An Official Site of the Bahá’í International Community

Capítulo III:

A História dos Esforços Educacionais
da Comunidade Bahá´í no Irã

E

mbora sendo a exclusão ao direito de educação uma injustiça dolorosa em qualquer circunstância, a situação dos bahá'ís iranianos pode ser avaliada com justiça pelo grau de importância dado à educação nas Escrituras sagradas da Fé Bahá'í, importância essa que tem influência direta no desenvolvimento material da humanidade, na vida social e no progresso espiritual de todos os seres humanos -- o que se comprova pela história marcante da comunidade bahá'í iraniana na busca e na provisão da educação ao longo de dezenas e dezenas de anos.

“Considera o ser humano como uma mina rica de pedras preciosas de valor inestimável. A educação, tão-somente, pode revelar seus tesouros, e permita à humanidade beneficiar-se disso” escreveu Bahá´u´lláh

Antes de serem fechados através de decreto do governo em 1934, as escolas bahá'ís no Irã atraíram milhares de estudantes. Nesta foto, participantes de aulas bahá'sí em Teerã, com seus professores. Imagem em alta resolução >

Desde os primeiros dias da Fé Bahá'í, seus seguidores estiveram profundamente comprometidos promovendo aprendizagem e conhecimento, estabelecendo e operando suas próprias escolas, e buscando sempre as melhores oportunidades educacionais para seus filhos e para os filhos dos outros.

Em nenhuma outra parte do mundo tem sido isso mais verdadeiro que no Irã, o local de nascimento da Revelação bahá'í, até se iniciarem as perseguições que se seguiram ao estabelecimento da República Islâmica em 1979, quando a Comunidade Bahá´í Iraniana era reconhecida como uma das comunidades bahá´ís nacionais melhor desenvolvidas no mundo. Já nas décadas finais do século dezenove existiam pequenas escolas, a nível de aldeia, fundadas e mantidas pelos bahá'ís no Irã, e criadas, posteriormente, escolas primárias e secundárias em agrupamentos urbanos maiores.

Desde os primeiros dias da Fé Bahá'í, seus seguidores estiveram profundamente comprometidos promovendo a aprendizagem e o conhecimento, estabelecendo e operando suas próprias escolas, buscando sempre as melhores oportunidades educacionais possíveis para seus filhos e para os filhos dos outros.

Cerca do ano de 1900, por exemplo, a Madrissih-yi Tarbiyat-i Banin (a Escola Tarbiyat School para Meninos) foi fundada em Teerã, e em 1911 começavam a ser erguidas as estruturas da Escola Tarbiyat para Meninas. Outras escolas bahá'ís igualmente logo surgiram em Hamadan, Qazvin, Kashan, e Barfurush.

As escolas estavam abertas a todos, e muitas crianças que não eram de famílias bahá'í se matricularam. A metade dos estudantes nas escolas em Teerã era formada por filhos de não-bahá'ís, por exemplo.

Antes de 1920, cerca de dez por cento das 28.000 crianças matriculadas nas escolas primárias e secundárias no Irã em escolas bahá´ís eram crianças filhas de familias de não bahá´ís, de acordo com uma fonte oficial.

Embora os números exatos sejam difíceis de confirmar, estima-se que mais de 50 escolas foram fundadas e administradas pelos bahá'ís na primeira metade do século XX.

Infelizmente, a maioria das escolas bahá´ís foram fechadas através de decretos do governo em meados dos anos trinta do último século, em um lamentável episódio de perseguição religiosa. Antes daquele tempo, há que se ressaltar, as escolas bahá´ís haviam alcançado proeminência considerável como instituições educacionais exemplares, atraindo numerosos estudantes de famílias proeminentes.

O governo do Xá Reza Pahlevi, como parte de uma política de padronização e nacionalização de todas as instituições sociais no país, exigiu que as escolas bahá'ís só fechassem em feriados especificados pelo governo. Porém, as comunidades bahá'ís tinham o compromisso religioso de não funcionar também durante os Dias Sagrados de sua religião, e por esta razão pediram ao governo idêntico direito ao dado às datas nacionais definidas pelo governo. Em resposta, as autoridades do governo suspenderam as licenças de funcionamento das escolas bahá´ís.

Os compromissos, seriamente defendidos pela comunidade bahá'í com relação à educação das crianças em especial, foram mantidos inabaláveis. Os pais bahá'ís enviaram seus filhos à rede oficial escolar, ou às aulas dadas pelos bahá´ís em casas particulares, mantendo a regularidade e a continuidade dos currículos, que incluíam educação moral e religiosa.

No final dos anos de 1970, pouco antes do estabelecimento da República Islâmica do Irã, a comunidade bahá´í era talvez o grupo de pessoas com melhor nível educação no Irã, com muitos de seus membros tabalhando como médicos, advogados, engenheiros, educadores e outros profissionais de alto nível na sociedade.

De um modo geral, esta ênfase sobre a educação teve um efeito notável na comunidade bahá'í iraniana. Desde meados até o final dos anos setenta, antes do estabelecimento da República Islâmica, a comunidade bahá'í era possivelmente o grupo humano melhor educado no Irã, com muitos de seus membros trabalhando como médicos, advogados, engenheiros, pedagogos, e outros profissionais de alto nível na sociedade.

Ao redor do ano de 1973, por exemplo, o percentual de alfabetização entre as mulheres bahá'ís de quarenta anos de idade era de praticamente cem por cento, em contraste com uma taxa de alfabetização nacional entre mulheres que era de menos vinte e cinco por cento.

Princípios progressivos

Em seu enfoque sobre educação, os bahá'ís estavam na vanguarda dos avanços educacionais que ocorriam no Irã entre o fim do décimo-nono e o começo do século vinte.

O sistema educacional tradicional no Irã estava baseado no ensino feito por líderes religiosos locais (mulás), que normalmente não tinham qualquer treinamento em métodos educacionais. Ensinavam freqüentemente em suas próprias casas, focalizando as aulas mais na memorização do Alcorão e em poesias, sem qualquer supervisão governamental e sem a obrigatoriedade de cumprir os padrões profissionais de educação. Estas escolas locais eram conhecidas como muktabs.

A nível secundário existia o madrassih, a faculdade religiosa que igualmente concentrava-se em ensinar o Alcorão, embora também se lecionasse a alguns alunos astronomia, medicina e matemáticas, utilizando textos medievais e métodos tradicionais.

“Durante a segunda metade do século dezenove ocorreram crescentes apelos de intelectuais iranianos, que se preocupavam pelo fato do Irã estar tão distante do nivel educacional existente na Europa, pedindo o estabelecimento de instalações educacionais modernas no Irã,” escreve Moojan Momen, um erudito bahá´í.

Em decorrência desses apelos, várias escolas “modernas” foram estabelecidas em Teerã, Tabriz, Rasht, Mashhad e Bushihr por volta da virada do século. Porém, algumas foram logo fechadas, diante da oposição conservadora ainda muito forte.

As escolas para meninas enfrentaram oposição até mais forte, com clérigos emitindo um fatwa que declarava que as escolas para meninas eram contrárias aos princípios do Islã Shiíta. Uma tentativa para fundar uma escola em 1903 durou apenas quatro dias, outra escola fundada em 1907 foi forçada a fechar logo em seguida, de forma semelhante.

Os bahá'ís, inspirados nos princípios progressivos de sua Fé, buscaram abandonar a educação islâmica tradicional, utilizando métodos pedagógicos e currículos condizentes com os avanços modernos na área educacional. Tanto Bahá´u´lláh, quanto ‘Abdu'l-Bahá , estimularam o estudo de ciências e das artes modernas, que inexistiam nos programas da educação tradicional. Os bahá'ís também tinham como meta incluir nas escolas a educação moral e espiritual, particularmente com base nas Escrituras de sua Fé. A importância dada ao provimento de educação a meninas era outro forte incentivo para a criação de escolas bahá'ís.

Além disso, os bahá´ís foram motivados a estabelecer suas próprias escolas porque muitas vezes as crianças bahá´ís eram impedidas de freqüentar as escolas oficiais.

O primeiro esforço efetivo para estabelecer uma escola bahá'í ocorreu na aldeia de Mahfuruzak, em Mazandaran, provavelmente no início da década de 1870, de acordo com as pesquisas feitas pelo Dr. Momen. Lá, um líder religioso local, Mullah Alí, havia se tornado bahá'í, juntamente com a maioria da população.

Inspirado pelos ensinmentos de Bahá´u´lláh sobre educação, Mullah Alí e a esposa dele, ‘Alaviyyih Khanum, fundaram uma escola tanto para meninos como para meninas, iniciando na aldeia uma escola como nunca houvera no país. Em 1882, porém, Mullah Alí foi denunciado por líderes religiosos vizinhos, preso, levado para Teerã, onde foi executado.

A Escola Tarbiyat para Meninos, em Teerã, fundada aproximadamente em 1899, foi o primeiro estabelecimento educacional bahá´í moderno no Irã, tornando-se logo conhecido como uma das melhores escolas no país. Em 1905, era a única escola em Teerã onde a matemática era estudada diariamente e os estudantes tinham turmas separados conforme as matérias estudas.

Com exceção da Escola americana, foi também a única a oferecer o ensino do idioma inglês, além das aulas obrigatórias pelo governo de ensino do persa, árabe e francês. Apesar do forte preconceito contra a Fé Bahá´í no Irã, numerosas pessoas proeminentes enviavam seus filhos para estudar na Escola Tarbiyat.

Escolas para Meninas

A Escola Tarbiyat para Meninas, estabelecida em 1911, foi igualmente, na época, um estabelecimento líder em inovação educacional. Oferecia ginásticas e esportes a meninas 15 anos antes que as escolas do governo permitissem educação física para meninas. O sucesso da Escola Tarbiyat para Meninas inspirou outras comunidades bahá´ís no Irã a fundarem idênticas escolas para meninas. Em 1934, quando o governo obrigou o fechamento da maioria das escolas bahá'ís, existiam pelo menos 25 escolas para meninas em todo o país, fundadas pelos bahá´ís.

Os bahá´ís iniciaram algumas das primeiras escolas para meninas no Irã. Na foto, um grupo de alunas da pré-escola na Escola Tarbiyat para Meninas, em Teerã, cerca do ano de 1930 Imagem em alta resolução >

Com o tempo, o progresso alcançado pelas mulheres bahá´ís foi extraordinário. Em um tempo quando as mulheres deviam ficar confinadas ao lar, os escritos bahá´ís estimulavam-nas a voltarem sua atenção para as ciências, para o trabalho e para assuntos que buscassem melhorar as condições humanas das pessoas. As escolas bahá´ís para meninas representaram, em decorrência de tais ensinamentos, uma mudança radical nos padrões tadicionais da sociedade com relação ao sexo feminino. Em alguns lugares, elas tinham de ser sempre acompanhadas por algum homem adulto para irem à escola, pois não era permitido meninas andarem sozinhas nas ruas. Realmente, a comunidade bahá´í enfrentou sérias dificuldades para o estabelecimento e manutenção de suas escolas. Desde sua fundação no Irã, em 1844, a Fé Bahá´í tem passado por ondas periódicas de perseguição. Em meados do século dezenove, nada menos de 20.000 dos primeiros bahá´ís foram mortos em razão de sua nova Fé.

“Depois de cinqüenta anos de ocultamento público devido às perseguições sofridas pelos primeiros crentes, o estabelecimento de uma escola bahá´í foi a primeira ocasião, em muitos lugares, em que a comunidade bahá'í entrou na arena pública,” disse o Dr. Momen. “As escolas se tornaram o sinal visível da existência de uma comunidade bahá´í em cada localidade e, por isso, freqüentemente tinham de enfrentar o ímpeto da ignorância e dos preconceitos das massas de iranianos que tinham crescido temendo e odiando os ‘bábís ' por nenhuma razão particular senão o que lhes foi ensinado pelos líderes religiosos e pelos mais velhos de suas aldeias. Oposição às escolas bahá´ís acontecia porque líderes religiosos islâmicos locais incitavam as massas contra as escolas e as autoridades locais se recusavam fornecer as permissões e certidões devidas para o funcionamento oficial das escolas.”

Os bahá'ís fizeram tudo o que lhe era possível fazer para mitigar a oposição. Por exemplo, nenhuma aula sobre a Fé Bahá'í era dada, e os alunos bahá'ís tinham aula de religião em separado, fora de escola, às sextas-feiras. As escolas tinham também todo o cuidado para cumprir com todos os decretos do governo sobre os currículos escolares, incluindo aulas em árabe, e sobre o Alcorão e o Islã.

Apesar destas medidas, ocorriam oposição e ataques às escolas. Em Sangsar, em 1921, por exemplo, uma turba incitada pelos líderes religiosos islâmicos locais invadiu a escola e queimou-a completamente.. Em 1913, em Abadih, onde uma escola para meninas foi estabelecida em 1908, o governador provinciano recentemente designado ordenou o fechamento da escola, para atender às reclamações dos líderes religiosos locais. O governador explicou aos bahá'ís: “Não pudemos abrir uma escola para meninas nem mesmo em Shiráz. Fazer isso em Abadih é ainda prematuro.” Os alunos de quase todas as escolas bahá´ís enfrentavam sempre diferentes formas de xingamento e até apedrejamento no caminho da casa para escola e vice-versa.

Apesar de todos esses obstáculos, a rede de escolas bahá´ís no Irã cresceu em número e cada escola cresceu em tamanho também. Inicialmente, a maioria dessas escolas tinha apenas o curso primário, mas em anos posteriores foram acrescentados graus secundários nas escolas existentes nas cidades. A Escola Vahdat Bashar, em Kashan, por exemplo começou como uma escola primária em 1909, com seis graus primários; um grau secundário foi acrescido em 1913/14. Antes das 1910, a Escola Tarbiyat em Teerã tinha cerca de 270 alunos, oferecendo cursos avançados em história, físicas, química, e botânica, além do ensino dos idiomas persa, árabe e inglês.

No ano de 1933, pouco antes de serem fechadas pelo governo, havia 47 escolas primárias administradas por bahá'ís no Irã, e pelo menos oito delas mantinham aulas de nível secundário. Pelos cálculos feitos por um estudante, estas escolas contavam, juntas, com mais de 4.700 estudantes matriculados. Estavam estabelecidas em virtualmente todas as regiões do Irã, incluindo as cidades de Teerã, Mashhad, Yazd, Qazvin, Kashan, Hamadan, e Saysan.

Com a ênfase dada à educação de meninas, as escolas bahá´ís promoveram uma geração inteira de mulheres altamente educadas no Irã.

Mostrado aqui (foto) membros do Comitê Bahá'í para o Progresso da Condição da Mulher, em Teerã, 1950. Imagem em alta resolução >

 

| Contato com os bahá'ís (e-mail) |