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Capítulo V:

Histórico das perseguições
aos bahá´ís no Irã

A

situação atual dos direitos humanos e da reforma social na República Islâmica do Irã não pode ser entendida adequadamente se não levarmos em conta o desenvolvimento histórico das perseguições contra a comunidade bahá´í — uma história muito importante para explicar a crise cultural pela qual passa a sociedade iraniana nos dias de hoje, à medida que seus líderes se vêm obrigados a enfrentar o desafio da modernidade.

A idéia de que deveria haver Mensageiros de Deus depois de Muhammad é vista por muitos muçulmanos como heresia — sendo uma das razões teológicas subjacentes que levaram às perseguições movidas contra os bahá´ís.

A Fé Bahá'í tem sido perseguida no Irã desde sua fundação em meados do século XIX. Cedo os seguidores enfrentaram oposição violenta das autoridades religiosas islâmicas e das dinastias sucessivas. Calcula-se que cerca de 20.000 pessoas pereceram nesses massacres durante o século XIX.

As perseguições continuaram com intermitência no século XX, coincidindo freqüentemente com a necessidade do governo se escorar no apoio dado por integrantes da liderança islâmica do Irã. As perseguições ocorriam independente da orientação política vigente.

Um pai bahá´í e seu filho (a esquerda) acorrentados após serem presos com outros bahá´ís, em uma fotografia tirada cerca de 1896. Ambos foram executados posteriormente. Imagem em Alta Resolução >

Algumas dos ataques contra os bahá'ís foram dirigidos por autoridades locais ou regionais. Em 1903, por exemplo, foram mortos 101 bahá'ís na cidade de Yazd por turbas incontroláveis incitadas por mulás hostis. Outras vezes, a opressão aos bahá'ís fazia parte de um programa nacional oficial. Durante os primeiros anos do Regime de Pahlavi (1927 a 1979), o governo formalizou uma política de discriminação contra os bahá'ís como uma concessão ao clero. Começando em 1933, proibiram a divulgação de literatura bahá´í, os casamentos bahá´ís não era reconhecidos, e os bahá'ís funcionários do governo foram rebaixados de posto ou demitidos. Posteriormente, as escolas bahá'ís foram fechadas.

Outra onda de perseguições teve início em 1955, quando o regime de Pahlavi permitiu a radiodifusão em âmbito nacional de uma série de vilipendiosos sermões contra os bahá'ís feitos por um conhecido clérigo shiíta de Teerã — com o objetivo de tornar os bahá'ís um “bode expiatório” para desviar a atenção pública de políticas impopulares do governo. Tanto a emissora nacional como a do exército foram colocadas à disposição do clérigo responsável, Xeique Muhammad Taqi Falsafi, que se juntou ao Ministro da Defesa do Governo do Xá, General Batmangelich, na demolição da cúpula da sede nacional bahá´í, utilizando picaretas. Uma onda de violências anti-bahá´ís varreu o país. Ocorreram assassinatos, estupros e roubos em muitas áreas, enquanto o governo assegurava ao Majlís que tinha ordenado a supressão de todas as atividades “da seita bahá'í.”

A Casa do Báb em Shiraz, um dos locais mais sagrados no mundo bahá'í, foi destruída por soldados revolucionários em 1979 e depois totalmente arrasada pelo governo. Imagem em Alta Resolução >

Os bahá'ís entendem que este padrão de perseguição é uma manifestação dos mal entendimentos e temor que freqüentemente acontecem quando surge uma nova religião, cuja matriz é uma ortodoxia já estabelecida. Tal padrão de reação ocorreu sempre na história das religiões; virtualmente todas as grandes religiões do mundo enfrentaram intensa perseguição na época de seu nascimento.

No caso da Fé Bahá'í, os ensinamentos de seus dois Fundadores (o Báb e Bahá´u´lláh) especialmente quando vistos pela lente do Islã tradicional, são considerados como desafios heréticos à ortodoxia religiosa vigente, como aconteceu com qualquer outro Profeta anterior.

Destruição da Sede Nacional Bahá´í em Teerã, Irã, no ano de 1955. Imagem em Alta Resolução >

A onda inicial de perseguição veio em resposta às reivindicações de um jovem comerciante iraniano, conhecido na história como o Báb, que anunciou em Shiraz, em maio de 1844, ser o Portador de uma nova revelação de Deus. Sua missão primordial, afirmou, era preparar a humanidade para o advento “dAquele a Quem Deus tornaria Manifesto,” o Mensageiro divino universal previsto nas Escrituras de todas as grandes religiões mundiais.

Os ensinamentos do Báb clamavam por uma reforma moral e espiritual da sociedade persa, e pela elevação da posição das mulheres e dos pobres. Promovia a educação e as ciências úteis, algo também considerado revolucionário. Tais ensinamentos progressistas e idealistas, que representavam uma ruptura clara do quadro de referência islâmica, foram aceitos rapidamente por milhares de seguidores, passando a ser vistos pelas autoridades seculares e religiosas como uma ameaça ao poder que detinham. Logo surgiram perseguições generalizadas e, como dito acima, vários milhares de seguidores, conhecidos como bábís, foram mortos indiscriminadamente. O próprio Báb foi executado em praça pública pelo governo, em 1850.

Entre os seguidores do Báb havia um nobre iraniano, conhecido como Bahá´u´lláh . Em 1863 anunciou ser Ele o Mensageiro que o Báb havia anunciado, sendo o Fundador da Fé Bahá'í. O tema central dos ensinamentos de Bahá´u´lláh é que a humanidade é uma única raça e que chegara o dia para a sua unificação em uma sociedade global. “A terra é apenas um país e o gênero humano seus cidadãos,” escreveu Bahá´u´lláh.

Bahá´u´lláh ensina haver um só Deus, e que todas as religiões do mundo são expressões de um único e progressivo plano divino, “a invariável Fé de Deus, eterna no passado, eterna no futuro.”

Os bahá'ís acreditam que Deus revela a verdade religiosa progressivamente à humanidade, através de uma seqüência de Mensageiros divinos, cada um deles o Fundador de uma grande religião. Tais Mensageiros, conforme conhecidos pela História, são os seguintes: Abraão, Krishna, Zoroastro, Moises, Buda, Jesus e Muhammad; e os mais recentes são o Báb e Bahá´u´lláh. Outros virão em idades futuras.

A idéia de que deveria haver outros Mensageiros de Deus depois de Muhammad é vista por muitos muçulmanos como heresia. No Alcorão, Muhammad referiu-se a Si mesmo como o “Selo dos Profetas,” e a maioria dos eruditos muçulmanos interpreta tal afirmativa para significar ter sido Muhammad o último Mensageiro de Deus a surgir na Terra.

Porém, os bahá'ís acreditam que a vinda do Báb e Bahá´u´lláh não representa nenhuma contradição aos ensinamentos islâmicos, ou os de qualquer uma das outras religiões reveladas. Os bahá'ís entendem que Muhammad encerrou, ou “lacrou”, o ciclo profético. Então, com o advento do Báb e Bahá´u´lláh, teve início uma nova era de cumprimento religioso. . Bahá´u´lláh refere-se a este novo período da história humana como a “fase de sua maturidade.” Os bahá'ís acreditam que tudo isso está de acordo com as profecias do Islã e das outras principais religiões do mundo.

A perseguição aos bahá'ís no Irã não está relacionada a qualquer assunto subjacente a etnias ou à agenda política. Unicamente suas convicções religiosas os distinguem dos seus compatriotas — convicções que os ensinamentos bahá´ís lhes proíbem impor aos outros.

Outros aspectos dos ensinamentos bahá'ís também despertaram oposição entre alguns seguidores do Islã. Ao delinear Sua visão de uma nova civilização mundial, Bahá´u´lláh defendeu uma série de princípios sociais altamente progressivos. Estes incluem a eliminação de todas as formas de preconceito; igualdade entre os sexos; reconhecimento da unidade essencial das grandes religiões do mundo; a eliminação dos extremos de pobreza e riqueza; educação universal; a harmonia da ciência com a religião; um equilíbrio sustentável entre sociedade humana e o mundo natural; e o estabelecimento de um sistema federativo mundial, baseado em segurança coletiva internacional e na unidade de humanidade.

Alguns muçulmanos fundamentalistas vêem a natureza progressista destes ensinamentos, como a igualdade de direitos e oportunidades para homens e mulheres e a ausência de clero religioso, como radicalmente contrários às tradições do Islã. Para o Islã Shiita no Irã, em especial — na verdade também para muitos Sunitas em outras partes do mundo, — o aparecimento de uma religião independente após o Alcorão, depois de quase treze séculos, não é apenas uma heresia teologicamente inaceitável, mas um sistema social com influência política, com novos pre-requisitos sociais que vão de encontro à ordem estabelecida pelo Islamismo. O efeito foi despertar nas lideranças Shiítas a determinação de extinguir a nova fé e acabar com seus seguidores.

A perseguição aos bahá'ís no Irã não está relacionada a qualquer assunto subjacente a etnias ou à agenda política. Unicamente suas convicções religiosas os distinguem dos seus compatriotas — convicções que os ensinamentos bahá´ís lhes proíbem impor aos outros.

Unicamente suas convicções religiosas os distinguem dos seus compatriotas — convicções que os ensinamentos bahá'ís lhes proíbem impor aos outros. Paradoxalmente, devido ao controle exercido pelo clero islâmico sobre os veículos de comunicação, a natureza das convicções bahá´ís permanece virtualmente desconhecida de um público que foi ensinado a temer odiar sistematicamente a nova Revelação e seus seguidores.

A comunidade bahá'í iraniana tem se negado a fazer uso de qualquer meio de comunicação de massa, inclusive rádio, televisão, jornais, filmes, a distribuição de literatura e conferências públicas. O resultado tem sido um preconceito generalizado e irracional.

 

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